2025 constituiu um marco para o Electrão, desde logo, porque coincidiu com a comemoração de 20 anos de actividade.
- 20 Anos e um novo ciclo de licenças
- Como vamos tratar os nossos resíduos?
- Levantar barreiras para o mercado do tratamento de resíduos
2025: 20 ANOS E UM NOVO CICLO DE LICENÇAS
2025 constituiu um marco para o Electrão, desde logo, porque coincidiu com a comemoração de 20 anos de actividade. Para assinalar esta data desenvolvemos com um conjunto de iniciativas, de que se destacou o evento de aniversário. Foi um momento de celebração e reconhecimento em que o Electrão evocou o passado e o contributo de todos aqueles que ajudaram a construir o que a associação é hoje.
Convidámos todos a olhar para a evolução alcançada nas últimas duas décadas. Envolvemos os parceiros da reciclagem e logística, municípios, empresas produtoras e associadas, mas também a Administração, os órgãos sociais do Electrão e toda a constelação de stakeholders com quem a associação interage. Honrar o passado é responsabilizar o presente por responder a inúmeros desafios que Portugal tem pela frente na gestão de resíduos.
2025 ficou também marcado pelo arranque de um novo ciclo de três licenças atribuídas para a gestão de equipamentos eléctricos e electrónicos; pilhas e baterias e embalagens.
Na esfera do sistema de reciclagem de equipamentos eléctricos e electrónicos o âmbito de actuação em Portugal permaneceu inalterado, ainda que se perspectivem mudanças. Note-se que a dimensão eléctrica e electrónica está hoje presente numa ampla e cada vez maior variedade de produtos e o futuro do fluxo poderá passar por vir a incluir novos equipamentos, como turbinas eólicas e cabos marítimos. A expectativa é a de que o crescimento do consumo e deste fluxo de resíduos venha a colocar cada vez maior pressão na infra-estrutura de fim de vida.
No que se refere ao sistema de reciclagem de pilhas e baterias há mudanças relevantes a assinalar, em linha com as directrizes do regulamento de baterias. O Electrão viu renovados quatro dos cinco subsistemas a que se candidatou, designadamente baterias portáteis, industriais, de meios ligeiros de transporte e de veículos eléctricos. Excluída ficou a categoria de baterias de arranque, que tem a expectativa de vir ainda a poder incluir no serviço de transferência de responsabilidade de gestão de resíduos que presta às empresas produtoras de forma a potenciar o porfólio da proposta de valor.
A licença para a gestão de embalagens foi também renovada havendo a registar um alargamento de âmbito, de forma a incluir no sistema as embalagens não urbanas e de grandes produtores, tal como previsto no regulamento de embalagens.
Este novo ciclo de licenças a 10 anos - o mais longo de sempre – é um sinal de confiança, mas configura também um convite claro à próxima etapa de crescimento e transformação do sector e para a qual é preciso avançar.
Ainda em 2025, destaque para o início da actividade da ÚNICO - Associação para a Gestão de Plásticos de Uso Único, que iniciou o primeiro ano de implementação de licença relativa à gestão de produtos de tabaco.
Os desafios dos fluxos emergentes
A celebração dos 20 anos foi uma oportunidade para o Electrão reafirmar a sua estratégia de servir as empresas produtoras – importadores, fabricantes e retalhistas, representando-as na gestão dos diferentes sistemas de reciclagem nacionais e promovendo a respectiva eficiência económica através de sinergias operacionais entre os fluxos de resíduos.
Cada vez mais as empresas estão a ser chamadas a ter uma participação activa na recolha, reciclagem ou gestão de fim de vida dos seus produtos, através da operacionalização de sistemas com base no princípio da responsabilidade alargada do produtor. O país precisa desse apoio para financiar e operacionalizar o desvio de resíduos de aterro e para fomentar as novas cadeias de recolha e reciclagem.
São vários os desafios lançados às organizações de diferentes sectores de actividade económica, desde logo na gestão dos têxteis e de mobiliário e colchões, que já são objecto de recolha selectiva por parte dos municípios em Portugal, ainda que os respectivos sistemas de reciclagem não estejam implementados.
O Electrão tem-se envolvido, desde a primeira hora, com um conjunto de organizações, na harmonização europeia e implementação dos novos sistemas de recolha e reciclagem e gestão de fim de vida de novos fluxos de resíduos. Está por isso preparado para apoiar o país na criação destes novos sistemas, que são estratégicos para reduzir a pressão sobre os aterros, aumentar as taxas de recuperação de materiais e diminuir a pressão sobre os recursos ambientais.
Valores de contrapartida: por SGRU, por qualidade de serviço e por tipo de recolha
O aumento significativo dos valores de contrapartida para recuperação dos gastos dos Sistemas de Gestão de Resíduos Urbanos, que asseguram a recolha e triagem de resíduos de embalagens, foi outra mudança relevante a assinalar em 2025.
Foi um aumento drástico, mal planeado e pouco transparente para as empresas. Não obstante, o Electrão sempre reconheceu que os valores estavam há muito por actualizar. Importa, no entanto, observar três aspectos fundamentais que defendemos desde a primeira hora e que até agora não foram acolhidos.
O primeiro tem que ver com a forma como é calculada a recuperação de gastos dos sistemas de gestão de resíduos urbanos. Entendemos que tomar como referência valores médios e agrupar sistemas pela sua maior ou menor ruralidade pode gerar injustiças e efeitos indesejáveis para o próprio aumento da recolha selectiva ambicionado.
Importaria, em segundo lugar, que os valores de contrapartida levassem em conta a qualidade do serviço. À semelhança do que acontece com as especificações técnicas dos resíduos de embalagem, que permitem aferir a qualidade das embalagens triadas, seria importante ter um indexante de qualidade de serviço para a recolha de resíduos em baixa, o que não existe até à data, seja em relação à integridade dos ecopontos, nível de enchimento ou limpeza da envolvente. Estes seriam indicadores a que deveriam ser associados os respectivos valores a pagar aos sistemas. É impensável que assim ainda não seja!
Por último, não menos importante, também os valores de contrapartida deveriam reflectir as diferentes formas de recolha usadas pelos sistemas, diferenciando, por exemplo, os sistemas que oferecem serviços específicos, como a recolha porta a porta.
Como vamos tratar os nossos resíduos?
Apesar de uma discussão muito válida sobre o tipo de estratégia relativa às infra-estruturas de tratamento de resíduos em Portugal, que decorreu ao longo de 2025, a verdade é que o país tarda em tomar decisões de fundo neste domínio e a decidir como quer tratar os seus resíduos urbanos no futuro.
Feita a consolidação e análise dos PAPERSU (Planos multimunicipais, intermunicipais e municipais de acção) era importante uma orientação nacional para o sector, comunicada com transparência, das decisões que se tomaram e do que se pretende implementar do ponto de vista das infra-estruturas de tratamento.
Por exemplo, não há evidência que se tenha conseguido promover a consolidação, o aumento de escala e a eficiência das centrais de triagem de embalagens do país. Continuamos a assistir a iniciativas individuais dos sistemas que respondem, naturalmente, às necessidades locais individuais.
Por outro lado, este atraso está a pressionar o sector em diversas frentes. Existe uma grande dificuldade em encontrar soluções de aterro, seja para resíduos urbanos, seja para industriais. Por mais que exista reciclagem em Portugal existirão sempre fracções a necessitar de confinamento técnico em aterro e o país tem que tratar de garantir rapidamente de aliviar esta pressão operacional e económica.
Naturalmente que a prevenção e reciclagem de resíduos é determinante. A responsabilidade alargada do produtor é um parceiro deste processo. Também os futuros sistemas de reciclagem contribuirão para o alívio destes os constrangimentos.
Enquanto não é totalmente claro o que se quer fazer e como se poderia financiar relativamente ao tratamento de resíduos, 2025 encerrou com outra indefinição relativamente à forma como deverá ser calculada a Taxa de Gestão de Resíduos (TGR). Com a agravante de já se saber que parte destes recursos financeiros, agora drasticamente aumentados, serão subtraídos ao sector da gestão de resíduos.
Ecomodulação: mais uma dose de complexidade nacional
2026 será o ano de aplicação da ecomodulação em Portugal. Desde a primeira hora que o Electrão tem assumido uma postura de oposição a qualquer iniciativa de ecomodulação que não esteja inserida num quadro europeu, com especial relevância no caso dos produtos eléctricos, para o quadro da directiva do ecodesign. Entendemos que é neste âmbito que devem ser equacionadas as questões de concepção do produto e desempenho ambiental.
Por via da implementação da ecomodulação, as empresas produtoras, seja na esfera dos equipamentos eléctricos, pilhas e baterias ou embalagens, terão que incorrer num conjunto de custos administrativos e mergulhar num processo complexo para conseguir determinar os atributos ambientais dos produtos que colocam no mercado e declará-los numa grelha cada vez mais complexa. Desta forma poderão beneficiar de um desconto que pode variar entre 8 a 10 % do valor da prestação financeira correspondente.
Este é um processo oneroso e pesado que poderá dar origem a modelos de implementação distintos entre entidades gestoras e que podem vir a ter um efeito de desnivelamento concorrencial entre empresas produtoras. De todo o modo, o Electrão será, naturalmente, um agente promotor das intenções da Administração e procurará ajudar as empresas aderentes a implementar da melhor forma possível este processo declarativo.
Levantar barreiras para o mercado único do tratamento de resíduos
Ao nível europeu, decorre um conjunto de iniciativas, no âmbito do pacote da economia circular, que procuram diminuir algumas barreiras operacionais e administrativas que ainda persistem entre os diferentes Estados-Membros e que perturbam o funcionamento do mercado único, especialmente no que diz respeito ao sector dos resíduos.
Ainda hoje sentimos dificuldades administrativas e registamos encargos financeiros elevados para fazer os resíduos cruzar a fronteira, mesmo entre Estados da União Europeia. Esta questão é particularmente revelante para Portugal que está a debater-se com a falta de capacidade de tratamento e reciclagem para determinadas tipologias de resíduos. A necessidade de recorrer a unidades fora de portas está a implicar custos de contexto adicionais, associados aos movimentos transfronteiriços de resíduos, constrangimentos estes que, na lógica do mercado único, nem deveriam existir.
Acresce que existe uma fragmentação do mercado único, já que determinados resíduos não têm esse estatuto reconhecido em todos os países, o que enfraquece o conceito de mercado europeu, em particular no sector da gestão de resíduos, que já tem uma carga regulatória e administrativa pesada.
A centralidade estratégica do sector da reciclagem
O actual contexto mundial, marcado por uma grande instabilidade, continua a colocar a reciclagem do centro da estratégia europeia. O sector assume-se como o parceiro natural para garantir à Europa a autonomia no que diz respeito a determinados materiais, críticos para o fabrico de novos produtos e que não estão disponíveis em território europeu.
Os objectivos de recuperação destes materiais já estão definidos com o sector da recolha e reciclagem, nomeadamente na área dos equipamentos eléctricos e electrónicos, a ganhar redobrada importância.
Não podemos continuar a misturar as componentes com terras raras de neodímio com resíduos ferrosos comuns, diluindo e perdendo o acesso a um material crítico. Este tipo de ineficiência terá que ser combatida a prazo, mas acreditamos que o enquadramento político vai intensificar esta mudança colocando cada vez maior pressão nesta área da recolha e reciclagem.
Também neste domínio não é possível continuar a traçar uma estratégia apenas ancorada na recolha selectiva, que nem sempre corresponde às expectativas, apesar de todos os esforços de sensibilização desenvolvidos há duas décadas. As entidades gestoras e os seus parceiros têm que olhar para o fluxo indiferenciado, onde permanecem ainda muitos materiais críticos, e recuperar a partir dessa base os materiais de que necessitamos para caminhar rumo à autosuficiência de abastecimento destes materiais de que a Europa necessita, acautelando ao mesmo tempo as questões de saúde pública e protecção ambiental.
Em 2025, ano em que o Electrão assinalou duas décadas de actividade, alcançámos resultados operacionais que representam um novo patamar para os sistemas de recolha e reciclagem de equipamentos eléctricos e pilhas e baterias em Portugal.
Um novo patamar de recolha e reciclagem de equipamentos eléctricos usados
Em 2025, ano em que o Electrão assinalou duas décadas de actividade, alcançámos resultados operacionais que representam um novo patamar para os sistemas de recolha e reciclagem de equipamentos eléctricos e pilhas e baterias em Portugal.
No conjunto dos equipamentos eléctricos, ultrapassámos as 45 mil toneladas recolhidas e encaminhadas para reciclagem, o valor mais elevado desde a criação do sistema, equivalente a cerca de 4,5 quilos por cidadão. Este desempenho traduz um crescimento de 26% face a 2024, reforçando a consolidação da nossa capacidade operacional.
As recolhas próprias, realizadas nos pontos directamente geridos pelo Electrão, assumiram novamente um papel determinante: representaram 84% do total enviado para reciclagem, fortalecendo a trajetória de crescimento contínuo da rede operacional, que quase triplicou desde 2019.
Os grandes electrodomésticos continuam a ser a tipologia com maior peso, com 22.909 toneladas, um crescimento expressivo de 51% face ao ano anterior. Seguem-se os pequenos eletrodomésticos, os equipamentos de regulação de temperatura, os equipamentos de informática e telecomunicações, monitores e televisores e, finalmente, as lâmpadas.
O reforço da rede de recolha foi novamente uma das chaves deste crescimento: em 2025 disponibilizámos 15.522 pontos de recolha, mais 1.919 locais do que no ano anterior.
A isto juntam-se fortes campanhas, como o Quartel Electrão e a Escola Electrão, que continuam a mobilizar toda a comunidade, tal como o projecto de recolha porta-a-porta de grandes electrodomésticos, já disponível em 12 concelhos da Área Metropolitana de Lisboa e região Oeste. Esta última iniciativa é especialmente relevante no combate ao mercado paralelo, um dos maiores constrangimentos do sistema e que continua a desviar para circuitos informais equipamentos que deveriam ser corretamente descontaminados e reciclados.
A contribuição dos operadores de gestão de resíduos que integram a rede Electrão foi igualmente relevante, já que permitiu reencaminhar para tratamento e reciclagem uma quantidade significativa de equipamentos correspondente a 5.809 toneladas.
É também de realçar o contributo dos parceiros da distribuição, cujo envolvimento crescente na recolha tem sido determinante para os resultados alcançados. Constituem um elo essencial do sistema e funcionam como um ponto de contacto privilegiado com os consumidores e com a população em geral.
A reutilização continua a ser prioridade. Em articulação com os nossos parceiros, foram identificados e recuperados equipamentos com potencial para ter uma segunda vida, o que resultou em 1 632 toneladas reutilizadas em 2025. Projectos como a Academia REPARA e a plataforma OndeDoar.pt reforçam este eixo estratégico, contribuindo para prolongar a vida útil dos equipamentos e reduzir a produção de resíduos.
Tudo isto foi alcançado num ano de fortes constrangimentos operacionais, nomeadamente a insuficiente capacidade de tratamento instalada em operadores nacionais e atrasos na emissão de Movimentos Transfronteiriços de Resíduos, factores que condicionaram a previsibilidade na gestão deste fluxo, dificuldades no armazenamento e aumento de gastos.
Recolha de pilhas e baterias também cresceu de forma expressiva
No domínio das pilhas e baterias, recolhemos e enviámos para reciclagem 1 705 toneladas em 2025, um aumento de 25% face a 2024.
O crescimento mais significativo verificou-se nas baterias industriais, que aumentaram 26%, de 957 para 1 201 toneladas. As pilhas portáteis registaram igualmente um aumento relevante, na ordem dos 17%, com 481 toneladas recolhidas e enviadas para reciclagem.
As baterias de veículos eléctricos e de meios de transporte ligeiro representaram 1% do total recolhido, com 23,3 toneladas, o que reflecte a evolução dos padrões de mobilidade urbana.
O número de pontos de recolha de pilhas e baterias também registou uma evolução expressiva: em 2025 existiam 10 307 locais de recolha, mais 572 do que no ano anterior. Estes resultados só foram possíveis graças ao envolvimento de municípios, operadores, empresas, distribuição e restantes parceiros do sistema.
Cada pilha ou bateria entregue no local certo protege o ambiente, mas também contribui para a autonomia europeia num contexto internacional cada vez mais competitivo. A Europa pretende assegurar que 25% das matérias-primas críticas provêm da reciclagem, o que exige identificar, separar e tratar resíduos que anteriormente se perdiam em fluxos convencionais.
Importa sublinhar que as pilhas de iões de lítio representam um risco significativo de incêndio quando danificadas ou descartadas incorretamente. A sensibilização para deposição segura é, por isso, essencial para a protecção de pessoas, infraestruturas e ambiente.
O Electrão pretende continuar a investir na expansão da rede, na proximidade com a população, na robustez técnica dos sistemas e na promoção de soluções que prolonguem a vida útil dos equipamentos salvaguardando ao mesmo tempo a protecção da saúde pública e do ambiente.